Parte II: A empreitada da Engenharia Mecânica

Os cursos de engenharia eram conhecidos como: “Pague para entrar e reze para sair”. Na verdade, não paguei para entrar, pelo contrario: eu estudei e muito. O pagamento era das mensalidades, no caso. Rezei para sair, isso eu não nego. Foram oito anos de muita ralação.

-Quem não sabe o que é um torno mecânico pode sair desta sala e ir embora. Esta foi a frase de um professor.

Muitos alunos saíram da sala e realmente nunca voltaram, desistiram da engenharia. Eu não sabia o que era um torno mecânico naquela época, mas fiquei quietinha e resolvi que daquele dia em diante não passaria sem saber o que aquilo significava.

Houve também um dia em que uma colega minha tirou uma nota ruim e foi reclamar com um professor de mecânica dos fluidos e ele disse: Também não sei o que mulher está fazendo em engenharia mecânica. Pena que não tínhamos celular com câmera ou gravador para entrar na justiça contra preconceito ou danos morais. Provavelmente ele estava era com medo da concorrência ou se sentindo ameaçado.

Ao invés de desanimar, ele me incentivou. Me senti desafiada e com uma vontade maior ainda de provar para aquele pobre coitado que tinha muita mulher boa poraí na profissão. Depois de engolir calada aquilo que tinha me atacado indiretamente, passei com 98 na disciplina dele. A vontade era de enfiar guela abaixo dele a minha nota.

Foi a única situação que lembro de ter sofrido algum preconceito na profissão e tinham empresas também que só aceitavam homens para assumir determinados cargos, mas não entendia como preconceito, pois eram características mais masculinas e pré requisitos determinados e desejados por cada empresa para realização da função. Apesar disso, não considerava nada como empecilho para mim. Eu também não posso dizer muita coisa a esse respeito, pois tive pouca experiência de trabalho na área: apenas uns dois anos que trabalhei no setor de produção (que era a que mais me interessava no momento) e no setor de qualidade.

O curso em si foi muito desgastante. Exigia muito esforço: eu estudava a maioria dos finais de semana, precisava de muito treino e prática. Sobretudo no primeiro ano que era tudo novidade e muito difícil. Até externamente à engenharia, as pessoas conhecem a disciplina “cálculo”.

Eu nunca usei para nada… mas também, como disse anteriormente, não trabalhei muito na área. E precisava aprender para resolver outros cálculos.

O que mais posso dizer em relação à engenharia: conheci muito sobre os homens e fiz grandes amigos! Afinal de contas, na sala eram poucas mulheres e na minha turma de amigos mesmo era só uma ou duas além de mim. Fazia festas recheadas de homens e apresentava para as minhas amigas para fazer intercâmbios. As festas eram conhecidas e muito animadas e rolavam pelo menos uma por mês.

Até aprendi a coçar o saco. Calma, não se assuste! Naquela época, pois com o convívio me tornei meio homem no aspecto comportamental. E sempre tive mais afinidade e empatia com os homens. Eles falam bobagens, riem, estão a maior parte do tempo de bom humor e não ficam reclamando como as mulheres e o papo é bem mais interessante. Eu aprendia e ria muito com eles. Todo grupinho de homens lá estava eu! E ainda tinha gente que reclamava que eu só fazia trabalho em grupo com homens. O que eu podia fazer? Afinal, eu estudava engenharia mecânica!

Outra coisa importante na engenharia: o orgulho. Todo engenheiro tem orgulho de ser. Sabe porque? O esforço é grande, então a vitória é mais válida que outros que exigem esforços menores. Além de não poder negar que os engenheiros ou engenheiras são  pessoas dotadas de extrema inteligência, são seres de raciocínio lógico e rápido, práticos e objetivos, além de muitas outras habilidades. Umas eu possuo, outras não, como por exemplo visão espacial….

Fora que eu não conheço ninguém que tenha feito engenharia mecânica e que esteja atualmente desempregado. Aproximadamente 99% dos meus colegas quando formaram estavam empregados. A maioria já trabalhava na área e estavam sendo promovidos a engenheiros. Muitos se voltaram para outros caminhos, sobretudo o do empreendedorismo e abriram seu próprio negócio. O engenheiro pode trabalhar em várias áreas. Os leigos acreditam que estudamos para trabalhar com mecânica de carro ou nesse área automobilística. Existe uma grande demanda nesta área mesmo, porém, o engenheiro tem conhecimento suficiente para trabalhar em qualquer setor de uma empresa ou indústria e é requisitado, mais do que qualquer outra profissão e, muitas vezes, mais bem remunerado.

Outra questão a se pontuar e que não há mais o que ser feito ao que diz respeito a mim, mas que sirva de conselho: Fazer um curso técnico antes de entrar para a faculdade é de grande valor ou até necessidade. Eu não fiz por falta de informação, eu nem sabia que existia. E eu digo que isso dificultou a realização de muitos trabalhos e o aprendizado de muitas disciplinas, até porque grande parte da turma já dominava o assunto e eu….. literalmente boiava ou dançava.

Depois do cálculo, as disciplinas que mais tive dificuldade foram ” comando hidráulicos e pneumáticos”. Nossa, não aprendia aquilo ali nem no porrete……e ainda tinha laboratório, ou seja, dificuldade em dobro. Era pra facilitar, já que aprendíamos na prática, mas eu confesso que a minha cabeça não associava os comandos!

Outra pedreira para mim foi o “desenho técnico”. Até chorar eu chorava, de tanta falta de aptidão para desenhar na prancheta: saía tudo torto, usar aquela régua T era um sacrifício. Enfim…..eu passei em ambas, dei meu jeito: repeti com outros professores, em outro curso e tomei até medo de tais disciplinas. Faltava realmente o dom.

O que importa é que eu me formei e agreguei uma grande carga de conhecimento. Tinham as matérias também que eu adorava, como por exemplo materiais de construção mecânica, química tecnológica (aprendíamos a corrosão e outros processos químicos), termodinâmica, mecânica dos fluidos, transferência de calor (nessa o bicho pegava!).

Eu aprendi o que é um torno mecânico, até usinei algumas peças, soldei, apesar da dificuldade de levantar aquela luva e avental pesados de raspas de couro e aquela máscara, que nunca tinham do meu tamanho. Eu também não pretendia soldar muito….foi só um teste. A solda também era muito pesada para meu delicado físico. Nos laboratórios de hidráulica e pneumática eu usava luva de médico para o óleo não estragar minha unha. Muita frescura? Nada, é cuidado. Outro fato interessante eram os laboratórios de mecânica: eu não conseguia identificar nada que estava dentro do capô do carro. Aí um colega meu disse: Relaxa, eu também não conheço metade do que está ali dentro. Aí fiquei mais tranquila e esperançosa. E não é que eu aprendi tudo direitinho? Só que não lembro detalhes!!!

Pena que não tirei fotos nos laboratórios para guardar de lembrança esses anos de engenharia mecânica na PUC-MG de Belo Horizonte! Será que encontraria poraí alguma dessas fotos para ilustrar o post no blog?

 

3 comentários

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  • Oii, eu to cursando engenharia mecânica e me sinto assim como vc descreveu… Ainda me bate uma duvida se devo continuar em mecânica, e um certo receio da profissão tbm! Gostaria de saber em que area vc atua hj e se possível alguma dica para que me de forca para ir em frente. Desde já obrigada, amei o post e boa sorte na sua carreira!

    • Olá Marcelle!!
      Muito obrigada por participar aqui e ler esse post!
      Grande passo que você já deu estudando engenharia mecânica. Com certeza já tem um diferencial. Hoje o número de mulheres cursando engenharia mecânica deve estar bem maior do que na minha época, porém a quantidade que desiste ainda é grande.
      Minha dica é: não desista!!! Mesmo que passe por apertos como os que eu passei, é normal e depois a recompensa é grande.
      E é esse ponto que você tem que analisar: vale a pena o esforço? Quais os resultados que você quer obter lá na frente? Qual o significado de ser uma engenheira mecânica para você? Essas são perguntas que deve se fazer sempre. E nada mais do que auto-conhecimento.
      Ah, e nunca tenha medo de fazer uma troca: sair da engenharia para buscar outra coisa que te satisfaça mais. Não tem ninguém te prendendo ali, tem?
      Quais são os receios? Faça uma lista do que gosta e do que não gosta no curso de engenharia e em que gostaria de atuar, os seus pontos fortes que são valorizados na engenharia e os pontos a serem melhorados, as oportunidades externas, do mercado e as ameaças externas. Anotando isso num quadro, vai te possibilitar ter uma visão mais ampla.
      É um pouco difícil eu te ajudar sem conhecer nada de você e sobretudo sem saber o real motivo que te levou a estudar engenharia, mas dicas sempre são úteis!
      Seja sempre diferente da maioria, crie diferenciais. Destaque não chama destaque à toa.
      Se todos fazem pós graduação e hoje não é mais um diferencial, fuja dessa linha retilínea….. o mundo está cheio de oportunidades.
      Vou te dar um exemplo: sempre busquei sair fora do comum, da maioria e sempre me destaquei por isso. Quando estudava engenharia mecânica, todos buscavam estudar inglês, esse era um diferencial…. apesar de ter estudado muitos anos e saber “me virar” na língua, não gostava e não usaria como diferencial, apesar do mercado pedir.
      O tempo para estudar inglês era longo até aprender e saber se comunicar e entrar numa empresa dizendo que tinha o inglês como outra língua. Então, como em Belo Horizonte o número de empresas italianas era grande devido à presença da Fiat, eu pensei em fazer italiano e, além de ter aprendido muito mais rápido, me abriu muitos caminhos. Quase ninguém naquela época falava italiano e eu procurei trabalhar numa empresa do grupo Fiat, sem ser a própria Fiat, pois essa era desejada por todos, a concorrência era grande e eu queria ser diferente. E assim me destaquei na empresa, inclusive, todos me chamavam de todas as divisões e setores para conversar italiano com os outros , para ser tradutora. Acabei saindo da empresa por isso, não era esse meu objetivo. Porém, percebi como o mercado estava carente de pessoas que falassem italiano no meio da engenharia.
      Então, busque algo que possa se desenvolver e se destacar da maioria, assim conseguira oportunidades melhores e será reconhecida por isso.
      Hoje eu considero que a engenharia me gerou muitos aprendizados e experiências interessantes como pessoa e profissionalmente, mas não como profissional de engenharia.
      Boa sorte na sua empreitada e qualquer dúvida estou à disposição!

  • Que delicia recordar, babies!
    Saudades da Engenharia Mecânica… Tempos difíceis, mas… Bons tempos!
    Adorei o texto, me identifiquei, relembrei, curti cada palavra!
    Acho que o que mais ganhei nestes anos foi sua amizade! Certeza!
    Beijo, Ferds

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