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Paixonite aguda: delícia, desordem ou um surto temporário do coração?

Será uma doença ou uma cura? Ou nenhum dos dois? Um sintoma, um impulso, um acontecimento fora de controle? Eu posso dizer que é algo que vem de dentro.

E não, ela não se restringe, como muita gente pensa, ao universo feminino. Homens também sentem, sofrem, negam, se confundem e às vezes até fazem de conta que não é com eles. Tem gente que conhece bem esse estado. Tem gente que nunca viveu. Tem gente que sonha em sentir isso pelo menos uma vez na vida. E tem gente que faria qualquer coisa para não sentir nunca mais.

A verdade é que a paixonite aguda chega bagunçando tudo. O corpo, a cabeça, o foco, o sono, o apetite, a produtividade, a dignidade em alguns casos. O coração acelera, a respiração muda, as mãos suam, a boca seca, o corpo inteiro parece entrar em estado de alerta e encantamento ao mesmo tempo. Vem o frio na barriga, o arrepio, o sorriso fácil, a sensação de flutuar e a absoluta dificuldade de prestar atenção em qualquer outra coisa.

A pessoa fica desconcentrada. Ou talvez desconsertada, que é um termo ainda mais preciso.

E aí vem a pergunta inevitável:

“Meu Deus, o que está acontecendo comigo?”

Se você já passou por isso, sinto informar: o diagnóstico está feito. Isso é paixão.

O que é paixonite aguda, afinal?

A paixão é um estado intenso, mobilizador e geralmente de curta duração. Aqui, carinhosamente, eu gosto de chamar de paixonite aguda. Porque ela realmente chega como quem não pede licença, altera os batimentos da vida e toma conta da cena principal.

A ciência entende a paixão como um estado psicológico e neurobiológico que interfere diretamente no sistema límbico, ou seja, em áreas ligadas às emoções, à motivação, ao prazer e ao vínculo. Na prática, isso significa que você não está “doido” nem “fraco”. Você está vivendo um estado em que o cérebro e o corpo estão funcionando sob uma química muito específica.

E talvez seja justamente por isso que a paixonite seja tão difícil de explicar para quem está de fora e tão impossível de ignorar para quem está dentro.

O lado gostoso da desordem

A paixonite tem algo de desorganizador, sim. Mas também tem algo de vivo, de pulsante, de encantador. Junto com ela aparece um desejo louco, difícil de controlar, difícil de racionalizar, difícil até de traduzir.

A cabeça não explica muito bem, mas o corpo entende tudo.

Você quer estar perto. Quer falar. Quer ouvir. Quer contar o que aconteceu no dia. Quer saber o que a pessoa está fazendo. Quer dividir o café, a música, o meme, a rua, a vida. Tudo parece mais bonito. As flores aparecem mais. O espelho melhora. O olhar muda. Você ri mais fácil, fica meio bobo, mais leve, mais elétrico, às vezes até mais bonito.

Sem exagero: a paixonite pode dar uma pequena pane temporária no bom senso.

Quando a paixão vira ansiedade

Mas nem tudo são flores, né?

Porque junto com o encantamento, muitas vezes vem o medo. Medo de não ser correspondido. Medo de criar expectativa demais. Medo de se entregar. Medo de perder. Medo de nem chegar a viver aquilo direito. E, quando esses medos começam a dominar a experiência, a paixão pode deixar de ser um impulso gostoso e virar um campo fértil para a ansiedade.

É aí que mora o perigo.

A pessoa pensa demais, imagina demais, interpreta demais, espera demais. A mente começa a rodar em torno da outra pessoa como se tivesse encontrado um centro gravitacional novo. E isso pode sim ganhar tons obsessivos, compulsivos e desgastantes.

Em alguns casos, a paixonite não é só um bem. Pode virar um mal.

O que acontece no cérebro quando a gente se apaixona

Vamos olhar para isso por um viés mais científico, porque entender também ajuda a sofrer menos — ou pelo menos a sofrer com mais consciência.

Quando estamos apaixonados, o cérebro libera uma série de substâncias químicas que alteram a nossa percepção, o humor, o desejo e a forma como nos vinculamos. Entre elas estão dopamina, oxitocina, vasopressina, adrenalina e cortisol.

A dopamina está muito ligada à motivação, ao desejo, ao prazer antecipado, à vontade de repetir aquilo que faz bem. A oxitocina e a vasopressina se relacionam ao apego, à conexão e ao vínculo. Já a adrenalina e o cortisol ajudam a explicar aquele estado de alerta, aceleração e ansiedade boa — ou nem tão boa assim.

Por isso a paixão mexe tanto com a gente. Não é exagero poético. É neurobiologia também.

E existe um detalhe importante: quando a paixão é correspondida, a experiência pode ser deliciosa, inspiradora e energizante. Mas, quando não é, essa mesma química pode virar frustração, dor, dependência emocional e sofrimento.

A paixão não é só por alguém

Tem mais uma coisa que eu gosto de lembrar: a paixão não se resume a um relacionamento afetivo.

Você pode estar apaixonado pela vida, por um projeto, por uma música, por uma ideia, por uma nova fase, por um trabalho, por uma causa, por uma possibilidade. Existe uma paixão que move, impulsiona, acende, coloca a energia vital para circular. Nesse sentido, a paixonite pode ser quase uma cura. Um chamado interno. Um grande impulso de realização.

Quando ela aparece desse jeito, a paixão deixa de ser prisão e vira força.

Contraindicações e efeitos adversos

Sim, estar apaixonado é uma delícia. Mas convém ler a bula.

Em alguns momentos, a paixão pode reduzir o senso crítico, gerar idealizações exageradas, alimentar dependência emocional e produzir decisões precipitadas. Além disso, há estudos que associam a paixão intensa a alterações em níveis de serotonina, o que ajuda a explicar por que esse estado pode ganhar contornos obsessivos em certas pessoas.

Traduzindo: quando estamos muito apaixonados, nem sempre enxergamos com clareza.

Por isso, embora seja maravilhoso viver esse estado, talvez não seja o melhor momento para fazer promessas eternas em três dias, mudar a vida inteira em uma semana ou acreditar que tudo o que a outra pessoa faz é genial, impecável e digno de canonização.

E afinal: cura ou entrega?

Acho que não existe cura maior para a paixonite do que vivê-la com presença, intensidade e algum grau de lucidez. Não para controlar tudo. Não para racionalizar demais. Mas para não se machucar à toa.

Paixão tem prazo de validade? Às vezes sim. Às vezes ela dura pouco e se transforma. Às vezes dura muito e muda de ritmo. Às vezes acaba. Às vezes amadurece. Às vezes nem começa direito e já nos deixa lembranças suficientes para escrever um texto inteiro sobre ela.

Talvez o segredo esteja menos em tentar curar a paixonite e mais em aprender a atravessá-la sem se perder de si.

E isso muda tudo.

Se você quiser entender a paixonite por outro ângulo

Se você se identificou com esse turbilhão e quer entender por que algumas paixões parecem quase um vício emocional, escrevi também um texto sobre a diferença entre amor dopaminérgico e amor serotoninérgico — e como isso muda completamente a forma de enxergar vínculos intensos e vínculos estáveis.

Leia também: Amor Dopaminérgico vs. Amor Serotoninérgico: a verdade neurobiológica sobre paixão e estabilidade.

Uma pergunta final

Me conta: você está vivendo uma paixonite aguda, se recuperando de uma ou torcendo para a próxima aparecer?

Porque, convenhamos, ela bagunça a vida, mas também nos lembra que o coração ainda está acordado.

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Respostas de 6

  1. E quando a paixonite vira ansiedade..depressão ..quando uma das pessoas é casada e a outra é solteira…e a paixonite domina o casal?? O que fazet? Esperar a paixonite passar ou levar adiante e terminar quando a paixonite acabar?

    1. Oi Daniel! Sinceramente, não tenho conhecimento sobre essas estatísticas…. e nem faço ideia se a maioria é correspondida!

    1. Olá Marcio! Tem certeza de que não é correspondida? Se realmente isso acontece, bola para frente! Tenho certeza que tem muita gente interessante por aí! Grande abraço.

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