A pequena alfa

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Naquela época, início dos anos 80, a diversão maior era brincar no parquinho no horário do recreio. Tinham vários brinquedos e dentre esses, o que a maioria das crianças mais gostava e portanto o mais concorrido era o balanço ou gangorra, como era chamado. Porém tinham apenas uns cinco deles para nem sei quantas crianças brincarem.

Estou falando de escola particular!

Funcionava da seguinte forma: o sinal, que era um alarme tocava na escola e a meninada da primeira a quarta série do primeiro grau (assim era chamado) saía para a merenda e depois o recreio ou o contrário. Havia uma certa variação dependendo das séries.

Eu não sei precisar o número de crianças que saíam desembestadas para brincar. E o local preferido era o parquinho!

O que eu tenho a dizer é que era muito frustrante chegar correndo e os outros sempre chegarem antes e ocuparem a gangorra durante todo o horário do recreio.

E o pior nem era isso: não havia ninguém que coordenasse o uso dos balanços e nem que controlasse ou assegurasse que tudo estava funcionando corretamente. Acho que por isso atualmente sinto ainda mais a necessidade de planejamento e coordenação das coisas.

E assim funcionou durante muito tempo. Nunca gostei de injustiça e nem dessa teoria  de que o mundo é dos mais fortes, dos mais espertos. Eu acredito mais na teoria de Charles Darwin que  sobreviverão aqueles que mais se adaptarem.

E eu com apenas oito ou nove anos só observava aquela situação e buscava ajuda dos superiores para resolver. Aí eles estipularam um tempo máximo para cada criança brincar de forma que todos pudessem divertir.

Tudo bem! Mas quem controlava isso? Já que ninguém o fazia então não funcionava. Nesse caso, eu tentei me adaptar a situação e bolar estratégias e arrumar adeptos para dar ação ao meu planejamento.  Arrumei uns três seguidores que apoiavam e estavam de acordo com meu plano.

Nós então iríamos controlar o tempo de cada criança que brincava na gangorra e, desta forma poderíamos utilizar depois. Organizamos uma fila dos que gostariam de ir em cada balanço, até para pressionar um pouco os outros…..tiveram uns que até choraram ao ter que ceder lugar ao colega. Aí já não era problema meu…. e sim dos pais e da escola…. que não ensinavam a criança a compartilhar e dividir. Eu estava ali como a líder para levar soluções.

Isso parou de funcionar após algum  tempo porque organizar crianças é meio complicado, ainda mais partindo de outras crianças. Eu deveria ter feito aqueles cursos de escoteiro! Assim acredito que iria aprender a coordenar melhor a equipe.

Aquela situação começou a ficar insustentável, muita injusta e eu comecei a ficar com raiva. Ainda mais que aqueles que conseguiam pegar a gangorra se apropriavam durante todo o tempo e ainda riam da cara dos que ficavam de fora. Isso intimidava aos meus seguidores e se tornou um desafio para a pequena Isabela.

Então, tentei fazer uma última tentativa para chamar atenção das autoridades: combinei com alguns colegas de não voltar para a sala de aula depois do recreio e então depois que bateu o sinal e todos saíram correndo, nós fomos brincar.

Passado algum tempo que não voltamos para a sala de aula, vieram nos buscar e fomos condenados por desobediência. Eu fazia o que eu acreditava que era certo e não o que os outros falavam que eu deveria fazer porque para mim aquilo sim estava totalmente fora das regras.

Se era para obedecer, que expusessem então regras claras. Isso era o que passava na cabeça de uma criança de nove anos. E eu não lutava por um objetivo meu apenas, e sim por justiça minha e de muitos outros.

A história não terminou por aí. Depois de sermões e de ter que assinar um termo de responsabilidade e de receber bronca dos pais, os meus colegas ficaram com medo de continuar e preferiram para de seguir o nosso propósito. Então, a equipe de luta pela igualdade de direitos se desfez.

Eu continuei insistindo na ideia de brincar na gangorra: não queria outro brinquedo, queria aquele! E não ia desistir fácil assim.

Um belo dia, uma das meninas que sempre brincava  no balanço vermelho (o que eu mais gostava) ficou me provocando e dizendo:

– Eu não vou  sair daqui e você  nunca vai conseguir brincar no MEU balanço…..Lá, lá, lá,la lá, lá….

Olha só que atrevida! Aquela provocação não foi nada boa e eu reagi à sua altura, não levava desaforo para casa!

Quando deu o sinal e ela saiu correndo e me disse: ” agora pode ficar!”.

Uma alta dose de adrenalina correu pelas minhas veias e eu instantaneamente  empurrei a gangorra na menina, quando ela estava de costas saindo. A intenção não era de bater na cabeça e cortar…… mas foi isso que aconteceu! Ela teve que ir para o hospital e levar pontos e eu novamente fui considerada culpada…. mas saí  fortalecida.

Uma coisa é certa: ela e os outros aprenderam a lição! E a pequena Isabela,  a sua missão.balanço5

 

 

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